Você já teve a sensação de estar ao lado de alguém e, mesmo assim, sentir que está sozinha?
Talvez seja uma das solidões mais difíceis de explicar porque existe uma pessoa que divide o mesmo teto com você.
Ela dorme ao seu lado, divide a mesa com você, pergunta se você vai querer café. Vocês têm fotos juntos, lembranças, talvez filhos, uma história construída ao longo dos anos.
Por fora, parece que está tudo no lugar.
Então você percebe que alguma coisa mudou.
Você começa a guardar pequenas coisas para si. Uma preocupação que antes contaria, uma alegria que já não sente vontade de compartilhar, uma coisa engraçada que aconteceu durante o dia e que acaba esquecendo antes de chegar em casa.
Não porque deixou de amar.
Talvez porque tenha começado a sentir que não está sendo ouvida.
E então você aprende a ficar em silêncio. No começo, é só para evitar discussão. Depois, para não incomodar. Com o tempo pensa que não vai fazer diferença.
Até chegar um dia em que percebe que está falando cada vez menos com a pessoa que um dia foi a primeira para quem você queria contar tudo.
É estranho quando a casa continua sendo a mesma, mas deixa de parecer um lugar onde podemos descansar.
Talvez porque casa não seja apenas parede, móveis e uma cama onde dormir. Casa também é aquele lugar onde podemos tirar a armadura. Onde não precisamos medir cada palavra. Onde podemos dizer "hoje não estou bem" sem medo de sermos julgados.
Onde uma lágrima não precisa ser escondida.
E talvez seja por isso que algumas pessoas demoram tanto para perceber que estão infelizes. Porque nem sempre o amor vai embora de uma vez. Às vezes ele vai ficando escondido atrás da rotina.
Atrás das contas.
Dos filhos.
Do cansaço.
Das conversas que foram adiadas.
Dos abraços que deixaram de acontecer.
E quando percebemos, estamos vivendo uma história que ainda tem amor, mas já não tem espaço para o nós.
Não sei se todo relacionamento pode ser salvo.
Também não acredito que todo relacionamento precise ser salvo.
Algumas histórias precisam de uma conversa. Outras precisam de perdão. Algumas precisam de tempo e existem aquelas em que a única maneira de continuar vivendo é encontrar coragem para partir.
Talvez o mais difícil seja descobrir qual dessas histórias é a nossa.
Porque escolher também é atravessar uma ponte e toda ponte assusta um pouco quando não conseguimos enxergar o que existe do outro lado, mas talvez exista uma pergunta que possamos fazer antes de decidir qualquer coisa:
"Ainda me sinto em casa quando estou ao lado de quem amo?"
Não precisa responder agora.
Às vezes, algumas perguntas precisam permanecer conosco por um tempo. Talvez a resposta esteja escondida em um silêncio. Talvez em uma conversa que ainda não tivemos.
Ou talvez naquele sentimento que aparece quando fechamos a porta do quarto e finalmente podemos admitir para nós mesmos aquilo que passamos o dia inteiro tentando esconder.
Se você já sentiu que o amor deixou de ser casa, saiba que não está sozinha nessa sensação.
E talvez sua história ainda não tenha chegado ao fim.
Neste momento, você está parado no meio da ponte, tentando descobrir para onde seguir.
E você?
Quando pensa na palavra "casa", ela ainda lembra a pessoa que está ao seu lado?
Ou existe uma parte de você que está procurando um lugar onde possa voltar a se sentir em casa?


